Há uma passarela imaginária entre as
ruas e lares de gramados tratadíssimos descritos por Richard Yates
(1926-1992) e John Updike (1932-2009). Os dois escritores
americanos sugaram para seus livros a imóvel classe média americana
do subúrbio, satisfeita com sua vida perfeita na superfície e
imperfeita na alma. Yates, um cronista de um estilo de vida
nova-iorquino imune a trovoadas nos controversos anos 60, não
assistiu a uma de suas pequenas obras ganhar corpo no cinema.
Revolutionary Road (no Brasil, Foi apenas um
sonho), com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, é um epítome de
uma classe trabalhadora cujos anseios estão mais plugados na fuga
da realidade do que nas possibilidades de ascensão social. No
filme, em cartaz no Brasil, quando April (Winslet) sugere a Frank
(DiCaprio) jogar fora toda a rotina perversa de uma rua perdida de
Connecticut para morar em Paris está amplificando o desejo quase
irresponsável de todas as classe médias latino-americanas. Um
desejo perdido e de conseqüências trágicas.
O longa de Sam Mendes (Soldado anônimo, Estrada para perdição e
Beleza americana) esfaqueia a classe dominada em todos os seus
mais frágeis conceitos, tira-lhe seu balão de oxigênio, força
chefes de família a repensar seus projetos – e dejetos. Ao
molhar com álcool feridas incômodas no dia-a-dia como o chefe
medíocre, o trajeto insuportável entre a casa e o trabalho, a
relação de mentira e a convivência forçada com o provincianismo
deprimente e opressivo, Mendes invoca o espectador a não sucumbir à
sua realidade morna diante do que o mundo oferece. E mostra o quão
é difícil migrar cérebro e corpo do sol resplandecente para uma lua
misteriosa e sombria.
Yates é filho de Nova York, a eterna Terra da Esperança, símbolo
máximo de um país cuja responsabilidade imperial é carregar o mundo
nas costas. O país do qual ninguém tem pena. À sua volta, na
Manhattan que é a aspiração de quem mora em distritos marginais
como Staten Island e Queens, há milhares de famílias como a
descrita por Yates. Famílias que se encostam umas nas outras como
que tentando se salvar. Foi apenas um sonho retrata isso com
absoluto descompromisso com o tornado quimérico que se tornou a
América – de Bush, Obama ou de quem mais vir. No fundo no
fundo, nos dias de hoje, diferentemente dos quase virgens Estados
Unidos de Yates, há uma sensação de que, a qualquer momento, mesmo
a superficialidade pode estar com os anos contados. É a partir
desta premissa que Obama, o Messias da Nova Democracia, diz
“Yes, we can”. Não é por causa das guerras desastradas
de Bush, dos atentados terroristas, do buraco nas finanças, do
empobrecimento da classe média. Obama quer tocar na mentalidade das
pessoas. Na dele própria.
John Updike, autor do divertido As bruxas de Eastwick e de mais 11
livros de ficção, cinco de poesia e uma peça de teatro, morto
recentemente em decorrência de um devastador câncer de pulmão, aos
76 anos, era um reverberador dos silêncios da classe média.
Colaborador da revista New Yorker, foi ali que rabiscou teses sobre
as dores dos limites humanos, de suas dificuldades clássicas e da
resolução de problemas que, aparentemente, empacam. Questões
existenciais estão no centro inteligente de sua produção. Associado
a proposições teólogas, reunia as experimentações humanas em
“três grandiosos segredos”: o sexo, a arte e a
religião. Ao redor dessas variáveis giravam suas crônicas e
crenças, hordas de palavras e reflexões descoloridas num pedaço de
papel. Em Ipswich, Massachusetts, onde morou por 17 anos,
aproximou-se de uma sociedade plena de desesperança. A cidade
serviu de mote para que aos 23 anos publicasse Couples
(1968), radiografia de um grupo de casais suburbanos enfileirados
numa solidão a dois.
Um isolamento a que pertenceu gente como o americano Jackson
Pollock, o depressivo artista plástico que virou inimigo dos
cavaletes e pincéis para entronizar uma estética absolutamente
autoral, calcada na pintura de ação, respingando tinta nas telas, e
condenada pelos críticos de arte. Um dos pecados de Pollock, no
auge nos anos 50 (morreu em 1956), foi ter-se privado da
externalização de sua obra. Com mostras e reconhecimento mundo
afora, Pollock, nascido em Cody, no estado de Wyoming, passou por
Los Angeles e Nova York, mas nunca deixou o país. Seus problemas
com a bebida, o gênio indomável e a imersão nas entranhas de uma
sociedade paralítica o levaram à morte num acidente de carro no
começo da manhã de 11 de agosto, após mais uma noite
maldormida.
A celebração dos microcosmos de Updike, Yates e Pollock, a partir
de interpretações maximizadas de um pequeno núcleo de pensamento,
consta para a história como lutas inglórias contra a mediocridade
geral. Partem deles, virtuosamente, alertas, avisos, apelos para
que a sociedade não deixe se nivelar pelo desamparo intelectual,
pela aridez de idéias e pela desolação mental. Em suas épocas, de
modo tipicamente soberbo, fortalecidos pelo autoconhecimento, eles
forneceram capítulos para um melhor entendimento, no nosso tempo,
de pequenas fortalezas do fingimento. De que tudo está bem, de que
todas as forças ocultas por trás de decisões e indecisões, de
arquipélagos de individualismo e podridão, arrastam-nos, ainda que
intragáveis, para dias melhores. Um status que eles sempre souberam
não existir.